Para algumas pessoas, a ideia de viajar no inverno para a Europa pode não parecer das mais animadoras. Nessa época do ano as temperaturas caem bastante e os dias se tornam mais curtos à medida que anoitece cada vez mais cedo. Mas é justamente no cair da noite do período mais frio do ano que a magia acontece. Quando a luz do sol vai embora, milhares de pequenas luzes se acendem nas tradicionais barracas de madeira espalhadas pelas ruas e praças das cidades. Algumas dessas barracas trazem enfeites e itens de artesanato, outras focam em brinquedos ou itens de vestuário, mas a maior parte oferece uma incrível variedade de doces, comidas e bebidas típicas, locais e preparadas especialmente nessa época do ano. No ar, o aroma de canela e especiarias se destaca e toma conta das ruas, vindo diretamente dos caldeirões de vinho quente ou das canecas decoradas que aquecem as mãos e a alma daquelas pessoas encasacadas que circulam animadas pelos Mercados de Natal da Europa.
Em busca dessa experiência de Natal autêntica, embarcamos para uma das viagens mais intensas e marcantes que já fizemos pela Europa. Ao longo de 30 dias, seguimos de trem por 23 cidades de quatro países, aproveitando cada parada para também conhecer os lugares que davam vida àquela tradição. Os mercados de Natal seriam o fio condutor para conhecer cada destino: queríamos descobrir essas cidades em uma época tão particular do ano, caminhando por seus centros históricos, provando sabores locais e entendendo como o Natal fazia parte da vida e da cultura de cada lugar.
Entre Suíça, França, Alemanha e uma breve passagem pela Áustria, atravessamos centros históricos medievais, cidades às margens de lagos, grandes metrópoles e diferentes regiões culturais. Foram dezenas de estações de trem, mercados de Natal e suas tradicionais canecas de Glühwein, em alemão, ou vin chaud, em francês — canecas essas que viraram uma coleção a cada nova cidade e se tornaram uma bela recordação de viagem.
Em Genebra, onde tudo começou, os chalés, as luzes e os sabores suíços ainda estavam sendo preparados para a temporada dos Marchés de Noël do roteiro. Foi em Montreux, com um papai Noel cruzando o céu em seu trenó voador sobre o Lago Léman, que entramos de cabeça no clima do Natal. Na Alsácia, atravessamos para uma França que tem raízes nas tradições germânicas e conhecemos a Capitale de Noël. Em Colônia, agora em solo alemão, brindamos sob a sombra imponente de uma das maiores catedrais góticas da Europa, enquanto diferentes mercados transformavam as praças do centro da cidade. Em Rothenburg ob der Tauber, caminhamos entre muralhas medievais e um mercado celebrado há séculos. Em Nuremberg, descobrimos que a história do Natal também pode ser contada pelo sabor de um Lebkuchen. E, às margens do Lago de Constança, atravessamos Alemanha, Áustria e Suíça quase sem perceber onde terminava um país e começava o outro. Até chegarmos a Zurique, de volta a Suíça, onde encerramos a viagem entre mercados espalhados pelo centro histórico e um mercado de Natal instalado dentro da principal estação ferroviária da cidade — um final especialmente simbólico para uma jornada feita inteiramente sobre trilhos.
E foi justamente viajando dessa maneira, seguindo os trilhos e usando os mercados de Natal como fio condutor, que começamos a perceber algo que ia muito além das luzes e das barracas. As tradições mudavam de uma cidade para outra, mas nem sempre essas diferenças acompanhavam as fronteiras desenhadas no mapa.
Antes da viagem: de onde vêm os mercados de Natal?
Os mercados de Natal não nasceram como atrações turísticas. Suas raízes estão nas feiras de inverno da Europa medieval, quando comerciantes e artesãos se reuniam para vender alimentos, roupas e outros produtos necessários para atravessar os meses mais frios. Com o passar do tempo, essas feiras foram incorporando elementos do Advento — período que compreende os quatro domingos anteriores ao Natal — e passaram a oferecer comidas típicas, enfeites e produtos ligados às celebrações religiosas. Aos poucos, começavam a surgir algumas das características dos mercados de Natal que conhecemos hoje.
E basta caminhar por um mercado atual para perceber que parte daquela tradição atravessou os séculos. Os artesãos continuam trabalhando madeira, cerâmica e outros materiais, receitas típicas reaparecem nessa época do ano e as praças seguem funcionando como pontos de encontro. O que mudou foi principalmente a escala: além dos moradores locais, esses mercados passaram a atrair cada vez mais viajantes de diferentes partes do mundo.
Com o crescimento do turismo, muitos desses mercados foram ganhando iluminações mais elaboradas, programação cultural e atrações que vão de pistas de patinação a rodas-gigantes. Ainda assim, os mercados que mais nos interessavam eram justamente aqueles em que a celebração continuava conectada à cidade, à sua gastronomia e às tradições locais.
4 países e 23 cidades: nossa rota de trem pelos mercados de Natal da Europa
À primeira vista, uma viagem por quatro países pode parecer sinônimo de longos e demorados deslocamentos. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para o mapa e para as fronteiras de Suíça, França, Alemanha e Áustria para perceber que, além da proximidade geográfica entre eles, a extensa malha ferroviária europeia permite percorrer boa parte dessas distâncias de forma bastante prática.
Por conta dessa facilidade, optamos por fazer todos os trajetos da viagem de trem e utilizamos um Eurail Global Pass válido por 30 dias. Os passes foram fornecidos em uma parceria com Eurail e Rail Europe, o que viabilizou parte da logística ferroviária deste roteiro. Como sempre, a parceria não interfere nas nossas opiniões e avaliações sobre os destinos, serviços e experiências apresentados ao longo do artigo.



+ Leia mais: Como funciona o Eurail Global Pass, o passe de trem da Rail Europe
Com uma boa escolha das cidades e, principalmente, da ordem das paradas, é possível montar um roteiro bastante eficiente. Foi exatamente o que fizemos na nossa viagem: na maior parte do percurso, mudar de cidade (ou até de país) significava passar menos de duas horas dentro de um trem. Isso nos permitia deixar uma cidade pela manhã e, poucas horas depois, já estar caminhando pelo centro histórico da próxima.



Nosso critério para a escolha das cidades levou em conta alguns fatores, como: 1) Relevância dos mercados de Natal; 2) Facilidade no acesso utilizando trem; 3) Prioridade no tempo de deslocamento de até três horas; 4) Inclusão do máximo de cidades inéditas em nosso itinerário.
Ao longo de 30 dias, saímos de Genebra e terminamos em Zurique, passando ainda pelas seguintes cidades, nesta ordem: Lausanne, Montreux, Berna e Basileia (Suíça); Colmar e Estrasburgo (França); Freiburg, Baden-Baden, Stuttgart, Esslingen, Colônia, Aachen, Würzburg, Rothenburg ob der Tauber, Nuremberg, Augsburg e Lindau (Alemanha); Bregenz (Áustria); St. Gallen (Suíça); Konstanz (Alemanha) e Lucerna (Suíça).
Na prática, foram dezenas de deslocamentos de trem, incluindo algumas paradas rápidas e bate-voltas. Essa facilidade de circulação foi essencial para o roteiro e também influenciou a maneira como percebemos as mudanças entre as diferentes regiões. Pelos trilhos, essas transições foram acontecendo diante dos nossos olhos: mudavam as paisagens, os idiomas e os costumes, enquanto algumas tradições pareciam atravessar as fronteiras junto conosco. E foi na Suíça francesa que começamos a descobrir essa Europa, tendo os mercados de Natal como fio condutor da viagem.
Suíça francesa: o começo da jornada
Se a Alemanha é o país que imediatamente vem à cabeça quando pensamos nos tradicionais mercados de Natal, nossa viagem começou em outro lugar: em uma Suíça que fala francês. Por aqui, os mercados são chamados de Marchés de Noël e o vinho quente aparece nas barracas como vin chaud. Foi às margens do Lago Léman, passando por Genebra, Lausanne e Montreux, que começamos nossa jornada.
Nossa porta de entrada foi Genebra, por uma razão bastante prática: era por lá que chegava nosso voo vindo do Brasil. O que estava longe de ser um problema, afinal, a cidade reúne atrativos que justificam a parada independentemente do Natal. Às margens do lago, Genebra combina um centro histórico de ruas de pedra, importantes museus, tradição relojoeira e algumas das instituições internacionais mais conhecidas da Europa.




Mas nossa chegada teve uma particularidade: os mercados de Natal de Genebra ainda não estavam abertos. Aqui vale uma observação importante: cada cidade tem seu próprio calendário para o início e o encerramento dos mercados, mesmo dentro de um mesmo país.
Como em Genebra os mercados só iriam inaugurar alguns dias depois da nossa estadia por lá, aproveitamos o tempo para conhecer a cidade com calma, já que era a nossa primeira vez por lá. Caminhamos pelo centro histórico, pelas margens do Lago Léman e visitamos alguns dos principais pontos de Genebra. Contamos essa experiência com mais detalhes no nosso artigo sobre o que fazer em Genebra.
De lá, foram cerca de 40 minutos de trem até Lausanne, ainda acompanhando a paisagem do Lago Léman. Conhecida como a Capital Olímpica, a cidade abriga a sede do Comitê Olímpico Internacional e o Museu Olímpico, um dos seus principais atrativos. Lausanne também chama atenção pela forma como se espalha em diferentes níveis, entre a parte alta, onde ficam o centro histórico medieval e a imponente Catedral de Lausanne, e a parte baixa, próxima à estação e às margens do lago.




Essa configuração aparece no Bô Noël (nome que faz referência à expressão francesa beau Noël, ou “bom Natal”), o mercado de Natal de Lausanne, que não se concentra em uma única praça. A programação se espalha por diferentes pontos da cidade, conectando áreas do centro com propostas distintas.
Na Place St-François, encontramos um dos principais núcleos do evento, com mercado coberto, comidas e apresentações musicais que deixavam a região especialmente animada à noite. Já sob os arcos do Grand-Pont, a Bô Caveau reunia produtores de vinho da região, trazendo um pouco da tradição vitivinícola suíça para dentro da programação natalina.



Mas o que mais nos chamou a atenção em Lausanne foi a estética do Bô Noël. Havia menos referências àquela imagem mais convencional do Natal, com Papais Noéis, árvores carregadas de enfeites e muito vermelho, e mais espaço para instalações, design, música e uma decoração de linhas contemporâneas.
No começo, até estranhamos um pouco essa ausência de alguns elementos que normalmente associamos ao Natal. Depois, percebemos que era justamente isso que dava personalidade ao mercado. Em Lausanne, a celebração parecia conversar mais com o perfil moderno e criativo da própria cidade do que tentar reproduzir uma fórmula natalina já conhecida.
De Lausanne, embarcamos novamente no trem para aquela que era a queridinha dessa primeira etapa pela Suíça francesa: Montreux. A cidade já despertava bastante expectativa pelo cenário às margens do Lago Léman e, claro, pela fama do Montreux Noël. Fora do período natalino, Montreux já é conhecida mundialmente pelo seu festival de jazz e pela localização privilegiada entre o Lago Léman e uma das principais regiões vinícolas do país.



Por estar bem próxima a Lausanne (o trajeto dura cerca de 25 minutos, com trens partindo de 15 em 15 minutos), Montreux pode facilmente ser visitada em um bate-volta de uma tarde. O próprio trajeto de trem até Montreux já é um espetáculo à parte: De um lado, o Léman acompanha boa parte do percurso; do outro, aparecem as colinas, vinhedos e pequenas cidades que ajudam a compor uma das paisagens mais características dessa região suíça.
O Montreux Noël surgiu em 1995, quando comerciantes locais decidiram criar um evento para movimentar a cidade durante o que era, até então, a baixa temporada. A partir daí, o mercado cresceu e passou a ocupar uma extensa área da orla, reunindo cerca de 200 chalés em suas últimas edições. Ali encontramos uma imagem muito mais próxima daquela que normalmente associamos aos mercados natalinos europeus. Chalés de madeira acompanham a margem do lago, cercados por luzes, comidas, bebidas quentes e pelas montanhas ao fundo. A combinação entre o mercado e a paisagem faz bastante diferença: em poucos lugares dessa viagem o cenário natural participou tanto da experiência quanto em Montreux.




A gastronomia ocupava boa parte das barracas. Encontramos clássicos suíços como raclette, rösti, salsichas grelhadas e croûtes au fromage, além de crêpes, waffles, chocolates e outras opções doces. Para acompanhar, havia vin chaud e diferentes bebidas quentes.



Aliás, foi aqui em Montreux que começou a nossa tradição que acabou acompanhando todo o restante da viagem: a coleção de canecas de mercados de Natal. Por aqui, as bebidas quentes eram servidas em uma simpática caneca decorada com o tema do Natal e referências à cidade, normalmente mediante o pagamento de um valor de depósito que poderia ser recuperado na devolução. Nós decidimos guardar a nossa como lembrança daquele belo mercado à beira do lago, e foi assim, quase sem planejamento, que nasceu a nossa coleção de canecas dos mercados de Natal.
Outra coisa que chamou a atenção em Montreux foi que, além das barraquinhas de rua, foram montados verdadeiros restaurantes completos em formato de chalé suíço, onde era possível sentar com calma e experimentar pratos típicos como fondue, raclette e batata rösti. Nós aproveitamos essa proposta, que transforma a refeição em uma experiência mais demorada e aconchegante dentro do próprio mercado. Para acompanhar, há vinhos da região e até cervejas produzidas especialmente para o Natal de Montreux, reforçando a identidade gastronômica do evento.


Mas o Natal em Montreux vai além das comidas, bebidas e barracas. Entre as atrações, além da roda-gigante, o maior destaque fica por conta da cerimônia do Papai Noel em seu trenó voador, que todas as noites cruza o céu sobre o Lago Léman. É um daqueles momentos em que todo mundo simplesmente para para olhar. Crianças, adultos, famílias inteiras acompanham o trenó atravessando o céu, com as montanhas ao fundo e as luzes da orla refletindo no lago. E, por alguns instantes, a gente também se deixa levar pela cena: quase acredita que aquilo é real e mergulha de cabeça na magia do Natal.
Da Suíça francesa à Suíça alemã sem mudar de país
Depois de Genebra, Lausanne e Montreux, deixamos para trás a região do Lago Léman e seguimos em direção à Suíça de língua alemã. Ainda dentro do mesmo país, começavam a mudar o idioma das placas, as conversas ao redor e algumas referências culturais que apareceriam com cada vez mais força nas etapas seguintes da viagem.
O grande objetivo natalino desse trecho era a Basileia, cidade que realiza um dos mercados de Natal mais importantes da Suíça. Mas havia uma outra cidade praticamente no caminho que fazia todo sentido aproveitar: Berna, a capital da Suíça.
De Lausanne, foram cerca de 1h10 a 1h15 de trem direto até Berna, onde passamos um dia. Os mercados de Natal da cidade infelizmente só iriam começar alguns dias depois da nossa passagem, a exemplo de Genebra, mas a logística pesava a favor, e a cidade já fazia parte dos nossos planos. Em vez de simplesmente atravessá-la de trem rumo à Basileia, aproveitamos a posição no caminho para conhecer seu centro histórico, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO. Caminhamos pela Altstadt, entre as longas arcadas, fontes históricas e fachadas medievais, até chegar a um dos pontos mais conhecidos da cidade, a histórica torre do relógio de Berna. Construída na Idade Média, a Zytglogge é famosa pelo relógio astronômico e pelas figuras mecânicas que se movimentam a cada hora cheia.



Ainda deu tempo de conhecer a incrível Münster, a Catedral de Berna, e cruzar o rio Aar para visitar o Bärengraben (um parque de ursos dentro da cidade) e o Rosengarten, de onde se tem uma bela vista sobre os telhados da capital suíça.




Foi uma parada relativamente curta, mas que funcionou muito bem dentro do roteiro: um dia inteiro nos permitiu conhecer os principais pontos que queríamos antes de seguir viagem, e na sequência, bastou cerca de 1 hora de trem para chegarmos ao destino que realmente concentrava nossas expectativas natalinas naquele momento.
A Basileia fica às margens do rio Reno, praticamente no encontro entre Suíça, França e Alemanha, e essa posição geográfica na tríplice fronteira (chamada de Dreiländereck) ajuda a explicar bastante da personalidade da cidade. Mesmo fora do período natalino, a cidade já rende facilmente um dia inteiro de passeio. O centro histórico é compacto e agradável de percorrer a pé, passando pela Marktplatz, onde fica a Rathaus de fachada vermelha, pela Basler Münster, com vista para o Reno, e pela histórica Mittlere Brücke. Caminhar pelas duas margens do rio também ajuda a perceber essa mistura entre uma cidade antiga, ligada ao comércio e à navegação, e uma Basileia contemporânea, marcada pela forte relação com arte, arquitetura e museus.





Para nós, porém, havia ainda outro motivo para estar ali: a Basileia marcava definitivamente a nossa entrada no Natal da Suíça alemã. O contraste com Lausanne apareceu quase imediatamente. Se o Bô Noël apostava em instalações, design e uma estética mais contemporânea, o Basler Weihnachtsmarkt se aproximava muito mais daquela imagem clássica dos mercados natalinos da Europa Central: chalés de madeira, luzes quentes, aromas de especiarias, vinho quente e comidas de inverno espalhados entre praças históricas. E na comparação com Montreux, aqui os elementos da cultura alemã dominavam, a começar pelo vocabulário: sai o vin chaud da Suíça francesa, entra o Glühwein, o vinho quente no idioma alemão.
Os dois principais núcleos do mercado de Natal da Basileia ficavam na Barfüsserplatz e na Münsterplatz, duas das principais praças do centro histórico, localizadas a poucos minutos de caminhada uma da outra. Na Barfüsserplatz, encontramos uma grande concentração de barracas de artesanato, enfeites de Natal e, claro, gastronomia típica. A riqueza de detalhes na decoração impressiona, com destaque para essa versão gigante das clássicas pirâmides de Natal alemãs entalhada em madeira.





Foi aqui que experimentamos um dos sabores mais tradicionais do natal na Basileia: o Basler Läckerli, um biscoito firme preparado com mel e especiarias. Escolhemos justamente o estande da Läckerli Huus, uma das marcas mais tradicionais da cidade, para provar o doce que leva o nome da Basileia e que aparece por toda parte nessa época do ano.


Na Münsterplatz, o cenário mudava um pouco. O mercado ocupava a praça aos pés da Basler Münster, a Catedral da cidade, cercado pelas construções históricas e pela decoração natalina. Entre os destaques estava a Raclette-Stube Heinz&Margot, uma estrutura montada praticamente como um restaurante dentro do próprio mercado, onde sentamos para comer raclette com calma, protegidos do frio. Para acompanhar, vinho quente e mais uma caneca para a nossa coleção!




Ao contrário de Genebra e Berna, aqui tivemos sorte com a data. Nossa passagem pela Basileia coincidiu justamente com o dia de abertura do mercado de Natal na Münsterplatz. Ao cair da noite, acompanhamos a cerimônia de inauguração, com música ao vivo e o acendimento das luzes que marcava oficialmente o início do Basler Weihnacht. Depois do Natal mais contemporâneo de Lausanne e do cenário à beira do lago que havia feito de Montreux uma das grandes experiências dessa primeira etapa, a Basileia acrescentava uma nova camada à viagem: um mercado de estética mais tradicional e de forte influência germânica, que combinava especialmente bem com as praças históricas e a arquitetura da cidade.
Alsácia: um Natal francês de profundas raízes germânicas
Da Basileia, cruzamos a fronteira com a França em um trajeto simples e rápido: cerca de 45 minutos de trem direto até Colmar. Saindo da estação Basel SBB, os trens regionais TER passam por cidades como Saint-Louis e Mulhouse antes de chegar ao destino, tornando essa uma das transições mais fáceis de todo o roteiro.
Entrávamos em uma das nossas regiões favoritas da França, mas que ainda não conhecíamos durante o período natalino. E a Alsácia tem uma particularidade que a torna especialmente interessante em uma viagem como essa. Apesar de francesa, sua identidade foi construída ao longo de séculos de convivência e disputas entre França e Alemanha, e essa herança aparece por toda parte: na arquitetura enxaimel, nos sobrenomes, nos nomes das cidades, no dialeto, na gastronomia e, claro, nas tradições de Natal.
Reservamos um dia inteiro para Colmar e outro para Estrasburgo, separadas por apenas cerca de 30 minutos de trem. As duas entregam experiências bastante diferentes, mas igualmente especiais. Colmar é menor, mais compacta e quase cenográfica; Estrasburgo tem outra escala, com mercados espalhados por uma capital regional que faz do Natal um dos grandes acontecimentos do ano.
Em Colmar, reencontramos uma cidade que já conhecíamos, mas completamente transformada pelos Marchés de Noel. As casas enxaimel coloridas, os canais e as pequenas ruas do centro histórico continuavam ali, só que agora cercados por guirlandas, luzes e enfeites que pareciam combinar naturalmente com aquela arquitetura.





Em vez de concentrar a celebração em uma única praça, Colmar espalha seus principais mercados pelo centro histórico, a poucos minutos de caminhada uns dos outros. Isso faz com que o passeio aconteça quase sem interrupções: saímos de uma rua decorada, entramos em uma praça com chalés, atravessamos outra sequência de fachadas iluminadas e, quando percebemos, já estamos dentro de outro mercado.

Nosso favorito foi o da Place Jeanne d’Arc, mais voltado aos produtos de terroir. Ali aparecem vinhos, queijos, embutidos e outras especialidades alsacianas, muitas vezes vendidos pelos próprios produtores. Foi também onde encontramos a barraca de vin chaud da Maison Martin Jund, vinícola e hospedagem no centro de Colmar onde ficamos nas duas vezes em que visitamos a cidade.





A gastronomia ganha ainda mais espaço no Marché Gourmand, na Place de la Cathédrale, onde restaurantes da região montam pequenas cozinhas para servir pratos alsacianos. Entre o que experimentamos estava a Alsaflette, preparada com batatas, linguiça defumada e queijo Munster — uma combinação que resume bem essa cozinha de inverno robusta, farta e marcada por influências que atravessam a fronteira com a Alemanha.



Colmar é pequena o suficiente para que tudo isso pareça concentrado. Em um único dia, é possível caminhar entre a Petite Venise, as casas históricas e os mercados sem que a experiência se transforme em uma corrida. E talvez seja justamente essa escala que torne o Natal por ali tão envolvente: a decoração não parece ocupar apenas algumas praças, mas praticamente a cidade inteira.
De Colmar, seguimos por cerca de 30 minutos de trem até Estrasburgo, onde o Natal ganha outra dimensão. Capital da Alsácia, Estrasburgo é uma cidade maior, mais monumental e mais complexa. Seu centro histórico ocupa a Grande Île, cercada pelas águas do rio Ill e marcada por canais, pontes, casas enxaimel e edifícios que deixam visíveis as diferentes camadas francesas e germânicas de sua história.
No coração de tudo está a Catedral de Notre-Dame de Strasbourg, uma daquelas construções que realmente impressionam ao vivo. A torre domina o horizonte do centro histórico e, durante o Natal, passa a fazer parte de um cenário ainda mais elaborado, cercada por barracas, fachadas decoradas e ruas iluminadas.



Não por acaso, Estrasburgo é conhecida como a “Capitale de Noël”, a Capital do Natal. O título não nasceu apenas de uma estratégia turística recente: o Christkindelsmärik, nome em dialeto alsaciano que significa “Mercado do Menino Jesus”, é celebrado há mais de quatro séculos e faz parte da história da cidade desde o século XVI.



Caminhando por entre as barracas, chama atenção a variedade dos enfeites de Natal e a relação com elementos da cultura regional. Não se tratam daqueles enfeites genéricos que se encontra em qualquer lugar, mas itens feitos à mão, alguns que você só encontra por aqui. É o tipo de mercado em que a gente precisa se controlar para não transformar cada parada em uma nova compra.





Mas o que mais ajuda a entender a dimensão do Natal em Estrasburgo é perceber que não existe apenas um mercado. Os chalés se espalham por diferentes praças e ruas da Grande Île, aparecendo nos arredores da Catedral, perto do Palais Rohan, na Petite France e em vários outros pontos do centro. Em alguns momentos, fica até difícil dizer onde termina uma área de mercado e começa outra.
Essa escala também diferencia Estrasburgo de Colmar. Em Colmar, a sensação é a de percorrer uma pequena cidade inteiramente vestida para o Natal. Em Estrasburgo, é como se uma cidade grande reorganizasse boa parte de seu centro histórico em torno da celebração. Durante o período natalino, as ruas, lojas, restaurantes e fachadas da cidade ganham milhares de luzes. A Rue du Maroquin, próxima à Catedral, é um dos pontos mais instagramáveis de Estrasburgo, e chama atenção pelos edifícios completamente decorados. Já a Place Kléber recebe o Grand Sapin, o grande pinheiro que se tornou um dos símbolos do Natal em Estrasburgo.




E se visualmente o Natal de Estrasburgo parece grandioso, a gastronomia continua lembrando o tempo todo que estamos na Alsácia. Entre as barracas, encontramos flammekueche, a massa fina coberta com creme, cebola e bacon; queijo Munster; e choucroute, preparado com repolho fermentado e tradicionalmente acompanhado de carnes e embutidos. São pratos franceses no endereço, mas que carregam uma proximidade evidente com a culinária germânica. Nos doces, aparecem os bredele, pequenos biscoitos preparados especialmente nessa época do ano; o kougelhopf, bolo assado em sua forma característica; e o pain d’épices, aromático, feito com mel e especiarias. Sem falar no onipresente Glühwein, é claro.
Em frente à Maison Kammerzell, restaurante que funciona em uma das construções históricas mais conhecidas da cidade e onde já havíamos comido em outra viagem, encontramos até uma barraca dedicada ao foie gras de pato, lembrando que, por mais fortes que sejam as influências germânicas, continuávamos na França.
Esse talvez tenha sido um dos aspectos mais interessantes dessa etapa. Em poucos quilômetros, a Alsácia conseguia juntar vin chaud e flammekueche, foie gras e choucroute, nomes franceses e germânicos, catedrais góticas e casas enxaimel sem que nada parecesse fora do lugar. O Natal apenas deixava essa mistura ainda mais visível.
Até a nossa recém-iniciada coleção de canecas encontrou uma diferença por aqui. Ao contrário do que havíamos visto na Suíça — e do que encontraríamos depois em muitos mercados alemães —, em Colmar e Estrasburgo as bebidas quentes eram servidas em copos de plástico decorados. Funcionavam perfeitamente para o vin chaud (ou Glühwein, para quem prefere o alemão) , mas eram bem menos tentadores como lembrança de viagem.
Depois de dois dias entre Colmar e Estrasburgo, ficou claro por que a Alsácia tem uma identidade natalina tão própria. Colmar conquista pela escala pequena e pelo cenário quase inteiro tomado pela decoração; Estrasburgo, pela dimensão, pela história e pelo peso de sua “Capitale de Noël”. Em ambas, a proximidade com a Alemanha aparece na arquitetura, na gastronomia e nas tradições, criando um Natal francês com fortes raízes germânicas.
Da Alsácia a Baden-Württemberg: nossos primeiros mercados na Alemanha
Depois de Colmar e Estrasburgo, cruzamos novamente a fronteira e finalmente entramos na Alemanha. De Estrasburgo até Freiburg im Breisgau, o trajeto levou cerca de 1h20 a 1h30 de trem, dependendo da conexão. Era uma mudança de país relativamente curta no mapa, mas importante para o roteiro: chegávamos justamente ao lugar que mais associávamos à tradição dos mercados de Natal.
Havia ainda um componente pessoal nessa chegada. Nós dois temos ascendência alemã, e existia uma expectativa especial em finalmente percorrer os Weihnachtsmärkte do país depois de acompanhar a tradição na Suíça e na Alsácia. Começaríamos por Baden-Württemberg, passando por Freiburg, Baden-Baden, Stuttgart e, graças a uma mudança de planos no meio do caminho, Esslingen.
A primeira parada foi Freiburg, já aos pés da Floresta Negra. Escolhemos passar a noite na cidade, o que nos permitiu conhecê-la durante o dia e reencontrá-la depois, iluminada pelo mercado de Natal. O centro histórico é compacto, marcado por ruas estreitas e edifícios antigos, e tem na Freiburger Münster sua grande referência.




Gostamos especialmente da Münsterplatz, onde a Catedral divide espaço com o tradicional mercado de produtores realizado durante a semana. Foi ali que experimentamos uma especialidade que praticamente funciona como um símbolo gastronômico da cidade: a Lange Rote, uma longa linguiça grelhada servida no pão, com cebola e mostarda a gosto.



Antes do anoitecer, ainda subimos ao Schlossberg, a colina que começa praticamente no centro. Do alto, os telhados de Freiburg ficam abaixo da torre da Catedral, enquanto as elevações cobertas pela Floresta Negra aparecem ao redor. Era uma boa maneira de entender onde estávamos antes de voltar às ruas para conhecer o Freiburger Weihnachtsmarkt.





O mercado se espalhava pela Rathausplatz, Franziskanergasse, Kartoffelmarkt e ruas próximas, ocupando boa parte do centro histórico e criando uma atmosfera muito agradável para caminhar sem pressa entre as barracas. Havia artesanato, enfeites, presentes, bebidas quentes e uma boa variedade de comidas típicas. Entre elas, voltamos a encontrar a Lange Rote, a longa linguiça grelhada servida no pão que já havíamos provado mais cedo na Münsterplatz — e que acabou sendo uma das nossas escolhas favoritas em Freiburg. E ali a nossa coleção ganhou mais uma integrante: depois dos copos de plástico encontrados na Alsácia, o vinho quente voltava a ser servido em canecas decoradas, e é claro que uma delas seguiu viagem conosco.




De Freiburg, foram cerca de 40 a 45 minutos de trem até Baden-Baden. Conhecida por suas águas termais desde o período romano, Baden-Baden cresceu como destino de lazer da aristocracia europeia, e esse passado continua presente na arquitetura elegante, nos hotéis e em construções como o Kurhaus e a Trinkhalle. Em um dia, caminhamos pela Lichtentaler Allee, subimos de funicular até a montanha Merkur, paramos no tradicional Café König para provar uma fatia de torta Floresta Negra e terminamos o passeio nas águas quentes da Caracalla Therme.






O Natal se encaixava naturalmente nessa atmosfera mais elegante. O Baden-Baden Christkindelsmarkt se concentrava em um único ponto da cidade, ocupando os arredores do Kurhaus e da Lichtentaler Allee, com as montanhas da Floresta Negra compondo o fundo da paisagem.




Na gastronomia, chamou nossa atenção a mistura de referências. Além dos sabores alemães, apareciam influências francesas, suíças e austríacas, algo coerente com a posição de Baden-Baden no sudoeste do país. Entre o que experimentamos estavam o Kartoffelpuffer, uma panqueca frita de batata servida com purê de maçã, e a Flammkuchen, que reencontrávamos pouco depois de deixar a Alsácia, dessa vez em uma versão rústica, assada em forno a lenha.




E a decoração natalina da cidade não ficava restrita ao mercado: lojas e restaurantes do centro também caprichavam nas fachadas, como a cervejaria Löwenbräu Baden-Baden, que nessa época ganha uma decoração natalina tão elaborada que acaba virando uma atração por si só.


A viagem então avançou para uma Alemanha de outra escala. De Baden-Baden, seguimos por cerca de 1 hora de trem até Stuttgart, capital de Baden-Württemberg e cidade conhecida mundialmente pela indústria automobilística, especialmente por nomes como Mercedes-Benz e Porsche.
Mas o que nos levava até ali naquele momento era o Stuttgarter Weihnachtsmarkt, uma tradição com mais de 300 anos de história. Em Stuttgart, o mercado não fica restrito a uma única praça: ele ocupa uma ampla área do centro, passando por praças como a Schlossplatz, Schillerplatz, Karlsplatz e Marktplatz, com centenas de barracas espalhadas entre os edifícios históricos. Nas canecas do mercado, o símbolo da Porsche reforça a tradição da cidade se misturando aos festejos do Natal.





Entre as comidas, começávamos também a entrar mais claramente na cozinha da Suábia, região histórica da qual Stuttgart faz parte. Foi ali que apareceu a Schwäbische Maultasche, massa recheada que lembra um grande ravióli e pode levar carne, espinafre e outros ingredientes. Em uma viagem tão guiada pela gastronomia dos mercados, esses pratos regionais ajudavam a mostrar que nem mesmo dentro da Alemanha existia um único “sabor de Natal”.
À noite, a Schlossplatz ganhava destaque com as fachadas iluminadas, enquanto na Marktplatz as janelas da prefeitura se transformavam em um enorme calendário natalino. Sem dúvidas, tivemos uma ótima impressão do primeiro grande mercado de Natal alemão dessa viagem.





Mas entre o início da tarde e a noite, foi justamente em Stuttgart que aconteceu uma das melhores mudanças de planos de toda a viagem. Já na cidade, ouvimos de algumas pessoas que, estando em Stuttgart durante o Natal, deveríamos aproveitar para conhecer o mercado medieval de uma pequena cidade vizinha. A recomendação foi tão insistente que resolvemos encaixar a visita a Esslingen am Neckar, cidade que não estava no nosso roteiro original.
A logística facilitava muito a decisão: bastava pegar um trem local na Stuttgart Hauptbahnhof e, cerca de 10 a 15 minutos depois, já estávamos em Esslingen. Como o deslocamento estava incluído no nosso passe, simplesmente embarcamos e fomos descobrir mais uma nova cidade. E como valeu a pena!
O Esslinger Mittelaltermarkt & Weihnachtsmarkt acabou sendo uma das experiências mais diferentes do roteiro. O centro histórico, com suas casas enxaimel e ruas estreitas, já oferecia o cenário ideal, mas a proposta ia muito além por se tratar de um mercado de Natal com a temática medieval.
A proposta vai muito além de colocar algumas barracas com decoração medieval. Mercadores e artesãos usam roupas de época, demonstrações de antigos ofícios acontecem diante do público e a programação inclui músicos, malabaristas, acrobatas, contadores de histórias, artistas com fogo e outros personagens espalhados pelas praças. O evento oficial reúne atualmente cerca de 180 barracas e centenas de atividades culturais ao longo da temporada, com apresentações distribuídas por diferentes espaços do centro histórico.



Foi justamente essa ambientação que mais nos chamou a atenção. Encontramos artesãos trabalhando com madeira, couro e metal, bancas com produtos que fugiam bastante dos enfeites natalinos convencionais e vendedores caracterizados, enquanto apresentações aconteciam em meio ao público. Jogos e brincadeiras pareciam saídos de filmes de época. Até as canecas de vinho quente eram na verdade um copo rústico em argila, bem original. Em vez de apenas caminhar de chalé em chalé, a sensação era de entrar em uma espécie de feira medieval montada dentro de uma cidade que já oferecia o cenário perfeito para isso.





E a temática não fica restrita ao visual. A programação oficial inclui demonstrações de técnicas artesanais, algumas com atividades para o público, além de atrações como música medieval e até o tradicional cortejo de tochas em direção ao castelo. O resultado é um mercado muito mais imersivo do que simplesmente temático: por algumas horas, Esslingen parece assumir outra época como parte da própria celebração do Natal.



Em apenas quatro cidades do mesmo estado alemão, já ficava claro que entrar na Alemanha não significaria encontrar uma única versão dos seus famosos mercados de Natal.
Catedrais e grandes mercados no oeste da Alemanha
Depois de voltar de Esslingen a Stuttgart, seguimos para o oeste da Alemanha. Foram cerca de 2h05 de trem ICE direto até Colônia, onde ficaríamos três dias e usaríamos a cidade também como base para um bate-volta até Aachen.
Chegar de trem a Colônia tem um impacto difícil de reproduzir em outras cidades. A Hauptbahnhof, principal estação ferroviária, fica praticamente ao lado da Kölner Dom, e basta sair da estação para dar de cara com as duas torres imensas da catedral gótica. Essa é uma daquelas construções que, ao vivo, fica difícil de entender como foi erguida pelo homem. Nem era nossa primeira vez ali, mas a reação foi quase a mesma: parar por alguns instantes e olhar para cima tentando absorver a escala daquela construção.
Colônia também é um dos grandes nomes quando se fala em mercados de Natal na Alemanha. Fazendo jus à fama de cidade multicultural, a cidade reúne alguns dos eventos mais conhecidos do país, espalhados por diferentes pontos do centro e com propostas bastante distintas entre si, cada uma com decoração, temática e, claro, canecas próprias.
O Weihnachtsmarkt am Kölner Dom é o mais emblemático justamente pelo cenário. As barracas ocupam a área diante da Catedral e, ao anoitecer, a arquitetura gótica iluminada se transforma no pano de fundo do mercado. É movimentado e turístico, mas basta levantar os olhos entre uma barraca e outra para entender por que aquele é um dos cenários natalinos mais reconhecíveis da cidade.





Foi em outro mercado, porém, que tivemos algumas das melhores experiências gastronômicas de Colônia. O Markt der Engel, na Neumarkt, nos pareceu mais tranquilo e frequentado também por muitos moradores. Centenas de pequenas luzes formavam uma espécie de céu estrelado sobre as barracas, enquanto personagens vestidos de anjo circulavam pelo mercado.



Ali provamos algumas das comidas de que mais lembramos dessa etapa: Lachs im Brötchen, salmão grelhado na brasa servido no pão; Spiessbraten, carne de porco assada; e Reibekuchen, a panqueca de batata que em Colônia costuma vir acompanhada de purê de maçã. Entre os doces, havia Baumkuchen e até um waffle do tradicional Café Riese assado no formato da própria Catedral.






Mas foi o Heinzels Wintermärchen, na Heumarkt, que acabou entrando de vez na memória da viagem. Inspirado nos Heinzelmännchen, os pequenos duendes do folclore de Colônia, o mercado é dividido em áreas temáticas e combina chalés, artesanato, comida, grandes estruturas de madeira e atrações variadas para todas as idades.




O Heinzels Wintermärchen é o maior mercado de Natal de Colônia, ocupando toda a extensão da Heumarkt. De tão grande, o mercado precisa ser dividido em áreas de acordo com temas específicos: na Handwerkergasse ficam os artesãos demonstrando seu ofício ao vivo; na Naschgasse os estandes de comida; e tem até uma viela de brinquedos voltada especialmente para os pequenos. No meio de tudo isso, imensas tabernas rústicas concentram a venda dos “carros-chefes” de todo mercado de Natal: vinho quente, cervejas e würsts.








Os simpáticos duendes estampam as canecas e também estão presentes em todas as peças de comunicação visual desse mercado de Natal. Mas o maior diferencial está, sem dúvidas, na enorme quantidade de atividades e atrações que vão além do esperado de “passear, comer e beber”. O Heinzels Wintermärchen é praticamente um parque de diversões com direito a roda gigante de onde se tem uma bela vista superior do mercado e até uma pista de gelo ao ar livre que está entre as maiores de toda a Alemanha.



E nossa relação com ele não terminava quando voltávamos para o hotel. Ficamos hospedados no Koncept Hotel, em um quarto voltado diretamente para a Heumarkt. Da janela, acompanhávamos o mercado mudando ao longo do dia: de manhã, as primeiras barracas abrindo; mais tarde, o movimento crescendo; à noite, as luzes, a roda-gigante e a pista de patinação compondo a paisagem logo abaixo. O melhor era que o mercado parecia entrar no quarto junto conosco. O cheiro das comidas e do vinho quente subia da praça e chegava até a janela, lembrando que bastava descer alguns andares para estarmos novamente no meio da festa. Foi uma escolha de hospedagem que deixou de ser apenas prática e acabou fazendo parte da própria experiência de Natal em Colônia.


Depois de alguns dias cercados por mercados de grandes proporções, aproveitamos a facilidade dos trens para fazer um bate-volta até Aachen, a cerca de 40 a 50 minutos de Colônia, dependendo do serviço.
Próxima às fronteiras com Bélgica e Países Baixos, Aachen tem uma escala completamente diferente. O centro histórico é encantador mas também compacto, concentrando boa parte da visita entre a Catedral, a prefeitura e as ruas ao redor. A história da cidade está profundamente ligada a Carlos Magno, que fez dali um dos centros de seu império, e sua Catedral, iniciada no século VIII, foi o primeiro monumento alemão reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO.




O Aachener Weihnachtsmarkt ocupa justamente esse núcleo histórico. Depois da variedade e do tamanho dos mercados de Colônia, gostamos da facilidade de percorrer Aachen a pé, entrando e saindo das praças sem grandes deslocamentos.
E havia um sabor que praticamente definia a cidade: o Aachener Printen, biscoito de mel e especiarias que lembra o Lebkuchen, mas tem características próprias. Já havíamos encontrado os famosos “Printen de Aachen” em outros lugares da viagem, por isso foi especialmente interessante prová-los finalmente na cidade de origem, onde aparecem em diferentes versões nas confeitarias e nas barracas do mercado.




Alemanha medieval: de Würzburg a Augsburg, entre muralhas, mercados históricos e sabores de Natal
Depois de Colônia e do bate-volta até Aachen, seguimos em direção à Francônia, em uma etapa em que o cenário da viagem mudaria bastante. Foram cerca de 2h30 de trem até Würzburg, ponto de partida de uma sequência por cidades históricas e próximas entre si que nos levaria também a Rothenburg ob der Tauber, Nuremberg e Augsburg.
Würzburg marcou nosso primeiro contato mais próximo com a Francônia, região da Baviera conhecida especialmente pelos vinhos. Em um dia, conseguimos passar por alguns dos principais pontos da cidade, como a monumental Würzburg Residenz, reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO, e a Alte Mainbrücke, ponte sobre o rio Meno de onde se avista a Fortaleza Marienberg no alto da colina.




No Natal, o Würzburger Weihnachtsmarkt ocupa principalmente a Marktplatz, entre a Marienkapelle e a fachada ornamentada da Falkenhaus. Encontramos ali o repertório que já começava a se tornar familiar — chalés, enfeites, comidas de inverno e Glühwein —, mas em uma cidade onde o vinho faz parte da identidade local. Foi uma boa introdução à Francônia antes de seguirmos para uma das paradas que mais aguardávamos nessa parte da viagem.






De Würzburg, foram cerca de 1h10 de trem, normalmente com conexões, até Rothenburg ob der Tauber. E poucas cidades combinam tão naturalmente com o imaginário natalino quanto Rothenburg.
O centro histórico permanece cercado pelas antigas muralhas e concentra uma sequência de torres, portões, ruas de pedra e casas enxaimel. O famoso Plönlein é a imagem mais reproduzida da cidade, e de fato rende fotos incríveis. Mas para nós a graça de Rothenburg sempre esteve menos em perseguir um ponto específico e mais em simplesmente se perder pelas ruas e praças.




Em Rothenburg não é preciso seguir qualquer lógica muito rígida de visita. A cidade é pequena e boa parte da experiência está justamente em caminhar sem pressa, atravessar os portões, entrar em vielas e subir em alguns trechos da muralha. No Natal, com as fachadas iluminadas e as barracas espalhadas pelo centro, essa sensação ficava ainda mais forte.

O Reiterlesmarkt é muito menor do que os grandes mercados que havíamos encontrado em cidades como Colônia ou Stuttgart. E isso, em Rothenburg, funciona a favor da experiência. As barracas ocupam principalmente a Marktplatz e as praças próximas, encaixadas entre os edifícios históricos sem tentar competir com o cenário. Em vez de um enorme evento natalino instalado dentro da cidade, parecia que o próprio centro medieval havia ganhado mais uma camada para o mês de dezembro.





A relação de Rothenburg com o Natal, aliás, vai muito além do mercado. É ali que fica a loja matriz da Käthe Wohlfahrt, uma das marcas de decoração natalina mais conhecidas da Alemanha. No período em que estivemos na cidade, chegamos a encontrar fila para entrar.





Lá dentro, o Natal assume proporções quase exageradas: árvores carregadas de ornamentos, quebra-nozes, pirâmides de madeira, bonecos, bolas decoradas e uma quantidade de enfeites capaz de testar seriamente o espaço disponível na mala. Mesmo para quem não pretende comprar nada, caminhar pelos ambientes da loja já faz parte da experiência de Rothenburg nessa época do ano.
Além das comidas e bebidas já tradicionais, uma especialidade que aparece por toda a cidade é a Schneeballen, a “bola de neve” feita com tiras de massa frita entrelaçadas e cobertas com açúcar, chocolate ou outros confeitos. É daqueles produtos tão associados ao destino que, depois de algum tempo caminhando pelo centro, parece impossível não reparar nas vitrines cheias delas.




De Rothenburg seguimos para Nuremberg, em um trajeto de aproximadamente 1h10 a 1h30 de trem, dependendo das conexões. Para nós, essa etapa tinha um sabor especial porque era uma volta a uma cidade pela qual somos apaixonados. Já conhecíamos Nuremberg de outra viagem e voltar justamente no período de Natal só aumentava a expectativa. O centro histórico, com suas igrejas, ruas antigas e o Kaiserburg dominando a parte alta da cidade, já tinha nos conquistado antes; dessa vez, queríamos ver como tudo aquilo se transformava com o Christkindlesmarkt em funcionamento.
Na Hauptmarkt acontece o Nürnberger Christkindlesmarkt, um dos mercados de Natal mais conhecidos da Alemanha. Visualmente, ele é até mais sóbrio do que alguns mercados que havíamos visitado antes, com barracas de madeira cobertas pelos característicos toldos listrados de vermelho e branco e a Frauenkirche compondo o cenário ao fundo. Mas talvez justamente por isso ele tenha uma identidade tão forte: em vez de depender de grandes atrações, o mercado aposta muito na tradição, nos produtos locais e na relação histórica de Nuremberg com o Natal.




E foi principalmente pela gastronomia que essa volta à cidade ganhou ainda mais significado. Começamos pelas Nürnberger Rostbratwürste, as pequenas salsichas grelhadas que são uma das marcas de Nuremberg e costumam aparecer no clássico Drei im Weggla, com três unidades servidas dentro do pão. É simples, rápido e perfeito para comer caminhando entre as barracas. Mas o produto que mais queríamos reencontrar ali era mesmo o Nürnberger Lebkuchen.





Já tínhamos provado Lebkuchen em outras cidades alemãs, mas queríamos experimentá-lo justamente em Nuremberg, onde o doce tem uma ligação histórica tão forte com a cidade. Apesar de frequentemente ser traduzido como “pão de mel”, ele é bem diferente do que conhecemos com esse nome no Brasil, com receitas que levam especiarias, amêndoas, avelãs e outras castanhas. Para provar diferentes versões, voltamos à Wicklein – Die Lebküchnerei, na Hauptmarkt, uma das casas tradicionais especializadas no doce. Ali experimentamos opções mais simples e outras bem mais ricas em castanhas e especiarias, percebendo como textura, cobertura e intensidade mudam bastante de uma receita para outra. Como era de se esperar, saímos de lá com vários Lebkuchen para levar para casa e presentear, inclusive nas tradicionais latas decoradas que continuam servindo de lembrança muito depois de o doce acabar.


E, como se Nuremberg ainda quisesse deixar mais uma memória daquela volta, começou a nevar à noite — a única vez em toda a viagem! Para nós, que já éramos apaixonados por Nuremberg antes mesmo desse roteiro, a cena teve um peso especial: o Christkindlesmarkt iluminado, as ruas do centro histórico ganhando uma camada de neve e a sensação de estar reencontrando um lugar querido em uma época completamente diferente do ano. Talvez tenha sido apenas coincidência, mas gostamos de pensar que foi uma espécie de presente de Nuremberg para fechar aquela visita.



De Nuremberg, seguimos para Augsburg, última parada dessa etapa pela Baviera, a cerca de 1h10 de trem direto.
Fundada pelos romanos, Augsburg está entre as cidades mais antigas da Alemanha e tem uma história profundamente ligada ao comércio e à família Fugger. Um dos símbolos dessa herança é a Fuggerei, conjunto residencial criado em 1521 para oferecer moradia de baixo custo e que continua cumprindo essa função séculos depois.
No Natal, porém, o centro das atenções muda para a Rathausplatz, diante da imponente prefeitura renascentista. É ali que acontece o Augsburger Christkindlesmarkt, com barracas de artesanato, comidas e bebidas espalhadas pela praça e pelas ruas próximas.

No centro da praça estão lado a lado a árvore e a pirâmide de Natal – esta última com oito metros de altura. Esse tipo de estrutura é comum nos mercados de Natal da Alemanha, especialmente na Baviera. As pirâmides de Natal costumam ser o ponto central de venda do Glühwein, o tradicional vinho quente e bebida símbolo do Natal, e aqui em Augsburg não foi diferente.



O momento mais característico é o Engelesspiel, realizado em datas específicas, quando personagens vestidos como anjos aparecem nas janelas e na fachada da prefeitura. Antes da apresentação, fomos convidados, como jornalistas, a conhecer o interior da Rathaus, o que tornou a experiência ainda mais especial. Depois de percorrer o edifício por dentro, voltamos para a praça e vimos suas janelas se transformarem em palco para o espetáculo. Os “anjos” surgem na fachada iluminada e, por alguns minutos, a própria prefeitura passa a fazer parte da encenação natalina — uma imagem bastante diferente de tudo o que havíamos visto nos mercados anteriores.



Entre três países: o Natal às margens do Lago Constança
Depois de Augsburg, deixamos para trás a sequência de cidades históricas da Baviera e seguimos para uma etapa em que a paisagem passaria a dividir o protagonismo com os mercados de Natal. Foram cerca de 2h15 de trem até Lindau, nossa porta de entrada para o Lago Constança — Bodensee, em alemão. A partir dali, em poucos dias circularíamos entre Alemanha, Áustria e Suíça, algumas vezes separados por menos de meia hora de trem.
Essa proximidade entre três países era justamente o que tornava essa parte do roteiro tão interessante. O trem continuava sendo nosso principal meio de transporte, mas agora o lago, os Alpes e até os barcos apareciam constantemente pelo caminho. Mudávamos de país com frequência, embora nem sempre a paisagem, o idioma ou os costumes mudassem na mesma velocidade.
A primeira parada, Lindau, acabou sendo também uma das mais bonitas de toda a viagem. O centro histórico ocupa uma ilha no Lago Constança e concentra ruas antigas, praças e um porto marcado pelo Leão da Baviera e pelo farol, com os Alpes aparecendo ao fundo nos dias de boa visibilidade. Já gostamos muito da cidade por si só, mas durante o Natal ela ganha um cenário especialmente bonito.
O Lindauer Hafenweihnacht acontece justamente na região do porto. Depois de tantos mercados instalados diante de prefeituras, catedrais e praças medievais, ali o pano de fundo era completamente diferente: as barracas ficavam praticamente à beira da água, com as luzes refletindo no lago enquanto o farol, o Leão da Baviera e as montanhas continuavam fazendo parte da paisagem.
E nós ainda tivemos a sorte de ficar hospedados praticamente diante desse cenário. Da janela do hotel, víamos o mercado iluminado junto ao porto, de modo que a experiência continuava mesmo depois de voltarmos para o quarto. Foi uma daquelas escolhas de hospedagem que, sem necessariamente terem sido feitas pensando nisso, acabaram se tornando parte da própria lembrança da cidade. Essa vista também aparece no nosso artigo específico sobre Lindau.
Na gastronomia, reencontramos clássicos que já faziam parte da rotina da viagem, como Bratwurst e Glühwein, mas provamos também um Laugenstange, aquele pão comprido feito com massa de pretzel, no nosso caso recheado com Speck. Para enfrentar o frio à beira do lago, entrou ainda um Whisky Punsch, uma das bebidas quentes que encontramos nas barracas de Lindau.
De todas as cidades dessa etapa, Lindau talvez tenha sido a que melhor mostrou como o cenário natural podia mudar completamente a experiência de um mercado de Natal. Ali, o lago não era apenas uma paisagem ao redor da cidade: fazia parte do próprio mercado.
No dia seguinte, bastaram cerca de 10 a 15 minutos de trem para cruzarmos a fronteira e chegarmos a Bregenz, na Áustria. Era quase estranho pensar que havíamos mudado de país: continuávamos diante do mesmo Lago Constança, cercados pelas montanhas e ouvindo alemão ao nosso redor.
Bregenz entrou no roteiro com um peso menor do que Lindau, mas trouxe uma das melhores vistas dessa parte da viagem. Subimos de teleférico até o Pfänder, montanha que se ergue logo atrás da cidade. Do alto, o Lago Constança se abre diante dos Alpes e ajuda a visualizar de forma concreta essa geografia incomum, com Alemanha, Áustria e Suíça tão próximas umas das outras. O turismo local fala em uma vista para centenas de picos alpinos, mas o que ficou para nós foi principalmente a sensação de conseguir enxergar, de um único ponto, a escala daquela região que estávamos atravessando de trem.
De volta ao centro, o mercado de Natal ocupava a Kornmarktplatz. Era menor e mais simples do que os grandes mercados alemães que havíamos visitado, mas funcionava muito bem como programa de fim de tarde. Tomamos Glühwein, comemos Bratwurst e circulamos pelas barracas sem pressa antes de seguir viagem. Durante a temporada natalina, existe inclusive uma ligação de barco entre Bregenz e Lindau, conectando os mercados das duas cidades pelo próprio lago.
Da Áustria, seguimos novamente de trem e, em cerca de 30 a 40 minutos, já estávamos na Suíça, em St. Gallen. A cidade tem como principal patrimônio o conjunto da Abadia de St. Gallen, reconhecido pela UNESCO, com uma das grandes bibliotecas monásticas da Europa. Mas foi o Natal que nos apresentou uma imagem completamente diferente de tudo o que havíamos visto até então.
St. Gallen se transforma na chamada “cidade das estrelas”: centenas de estrelas luminosas ficam suspensas sobre as ruas e praças do centro, criando uma cobertura de luz que acompanha o caminho até a região da Abadia. Na Klosterplatz, ao lado da Catedral, uma grande árvore iluminada completa o cenário. Depois de tantos mercados decorados com guirlandas, pinheiros e luzes tradicionais, bastava olhar para cima para perceber que St. Gallen tinha encontrado uma linguagem própria.
O mercado se concentrava principalmente nos arredores da Marktplatz e da Marktgasse, com artesanato, enfeites e produtos regionais. Entre os sabores locais, apareceram doces como o Biber, preparado com mel e especiarias, e o Magenbrot, também bastante aromático. Mas, para nós, a grande memória de St. Gallen ficou mesmo na decoração: poucas cidades dessa viagem conseguiram criar uma identidade visual tão reconhecível com um elemento tão simples.
E então veio mais uma fronteira. De St. Gallen, foram cerca de 35 minutos de trem direto até Konstanz, de volta à Alemanha. Nesse ponto, cruzar de um país para outro já começava a parecer quase um deslocamento metropolitano.
Konstanz é a maior cidade da região do Lago Constança e tem um centro histórico compacto, com ruas antigas que conduzem até o porto. No Natal, essa ligação entre a cidade e a água aparece também no Konstanzer Weihnachtsmarkt am See, que se estende da região central até a margem do lago, formando um longo percurso de barracas, comidas e iluminação.
Entre os sabores do sul da Alemanha, encontramos o Käsespätzle, massa servida com bastante queijo derretido e cebolas crocantes, além das inevitáveis salsichas que já haviam nos acompanhado por tantos mercados. Mas o elemento mais particular de Konstanz estava no porto: o Weihnachtsschiff, o “Navio de Natal”.
Atracado junto ao mercado, o barco leva barracas e gastronomia também para dentro da embarcação. Depois de semanas encontrando mercados em praças, diante de catedrais, dentro de centros medievais e até às margens de outro lago, chegar a um mercado que literalmente avançava sobre a água parecia um fechamento bastante apropriado para essa etapa.
E foi justamente ao redor do Lago Constança que uma percepção que já vinha aparecendo em outros momentos da viagem ficou muito mais evidente. Em poucos dias, saímos da Alemanha, cruzamos para a Áustria, entramos na Suíça e voltamos novamente à Alemanha. Em alguns desses trajetos, a mudança de país levou menos tempo do que muitos deslocamentos dentro de uma única cidade.
As fronteiras mudavam no mapa, mas o alemão continuava sendo ouvido nas ruas, o Glühwein permanecia nas barracas e muitos sabores, arquiteturas e costumes pareciam atravessar os limites nacionais junto conosco. Isso não tornava Lindau, Bregenz, St. Gallen e Konstanz iguais — muito pelo contrário. Lindau tinha o porto iluminado diante dos Alpes; Bregenz, a vista do Pfänder; St. Gallen, seu céu de estrelas; e Konstanz, um mercado que terminava dentro do lago.
Foi ali que ficou mais claro um dos aspectos mais interessantes de toda a viagem: as fronteiras políticas nem sempre coincidem com as fronteiras culturais. Às vezes atravessávamos para outro país e encontrávamos muitas referências familiares do outro lado; em outros momentos, bastava mudar de região dentro do mesmo país para perceber diferenças muito maiores. Ao redor do Lago Constança, o lago, a língua e séculos de convivência pareciam conectar aquelas cidades de uma forma que o mapa, sozinho, não consegue mostrar.
De volta à Suíça: os últimos mercados da viagem
Depois de circular pelas margens do Lago Constança e cruzar várias vezes as fronteiras entre Alemanha, Áustria e Suíça, começávamos a última etapa da viagem. De Konstanz, seguimos de trem para Lucerna, em um percurso de cerca de 2h15, deixando o Bodensee para trás e avançando novamente para o interior suíço. A água e as montanhas continuariam presentes, mas agora em uma paisagem completamente diferente.
Nós já gostávamos de Lucerna antes mesmo de pensar em conhecê-la durante o Natal. Poucas cidades reúnem de forma tão concentrada aquela imagem clássica da Suíça: o rio Reuss atravessando o centro, o lago cercado por montanhas, fachadas antigas e a Kapellbrücke, a famosa ponte de madeira coberta que é um dos grandes símbolos da cidade. No inverno, as luzes e os mercados acrescentavam uma nova camada a um cenário que por si só já justificava a parada.
O mercado que mais gostamos foi o Lozärner Weihnachtsmarkt, instalado ao redor da Franziskanerplatz. Depois de algumas das grandes celebrações que havíamos encontrado na Alemanha, Lucerna parecia jogar em outra escala. As barracas ocupavam a praça diante da Igreja Franciscana e se integravam às ruas do centro histórico, criando uma atmosfera mais próxima e menos monumental.
Foi também um dos mercados em que tivemos mais a sensação de estar compartilhando uma celebração da própria cidade. Moradores se encontravam ao redor das mesas, conversavam com uma caneca de vinho quente nas mãos e paravam para comer depois do trabalho. Em vez de correr atrás de atrações, nós mesmos acabamos entrando nesse ritmo: pedimos alguma coisa quente, encontramos um lugar para ficar e simplesmente observamos o movimento ao redor.
Na comida, apareciam novamente sabores que já conhecíamos bem daquela viagem, como raclette, queijo derretido, salsichas e Glühwein. Perto do lago, porém, o Rudolfs Weihnacht mostrava outra face do Natal de Lucerna, mais descontraída e gastronômica, misturando especialidades suíças com comidas de outros países. Entre as barracas, encontramos até empanadas e erva-mate em uma proposta argentina, um detalhe inesperado no meio de tantas semanas de culinária centro-europeia.
Lucerna acabou funcionando muito bem justamente por essa combinação: um mercado tradicional encaixado no centro histórico, outro de perfil mais contemporâneo perto do lago e, ao redor dos dois, uma das paisagens urbanas mais bonitas da Suíça. Não precisava competir em tamanho com os grandes mercados alemães para deixar uma lembrança forte.
De lá, faltava apenas um último deslocamento. Em cerca de 45 a 55 minutos de trem, chegamos a Zurique, onde terminaria nossa viagem de 30 dias. Depois de tantas pequenas cidades, centros medievais e regiões montanhosas, voltávamos à maior cidade da Suíça, com um ritmo muito mais urbano e vários mercados distribuídos entre o centro histórico, o lago e as grandes áreas comerciais.
Zurique não concentra o Natal em uma única praça, e foi justamente essa diversidade que nos agradou. Na Sechseläutenplatz, diante da Ópera, o Wienachtsdorf tinha uma escala maior e bastante espaço dedicado à gastronomia. Já no Niederdorf, o Dörfli se espalhava pelas ruas estreitas da parte antiga da cidade, encaixando as barracas entre fachadas históricas e vielas que ficavam ainda mais bonitas depois que escurecia.
Outro momento diferente aconteceu na Werdmühleplatz, onde encontramos a famosa Singing Christmas Tree. Em vez de uma árvore convencional, a estrutura funciona como um palco em formato de pinheiro, ocupado por corais durante a temporada. Depois de tantos mercados, árvores iluminadas e apresentações ao longo do caminho, ainda aparecia uma forma nova de celebrar o Natal.
Mas nenhum lugar poderia combinar melhor com o encerramento dessa viagem do que a Zürich Hauptbahnhof.
Dentro da principal estação ferroviária da cidade, um grande mercado de Natal ocupava o saguão enquanto, a poucos metros dali, os trens continuavam chegando e partindo normalmente. Depois de um mês em que praticamente todos os deslocamentos haviam sido feitos sobre trilhos, terminar o roteiro caminhando entre barracas instaladas dentro de uma estação tinha algo de perfeitamente circular.
Havia apenas uma pequena pendência para quem vinha carregando uma coleção cada vez maior na mala: não conseguimos encontrar uma caneca oficial de Zurique. Depois de semanas escolhendo quais levar conosco em diferentes cidades, foi quase estranho terminar sem acrescentar mais uma. No fim, até essa ausência acabou virando parte da lembrança.
E assim Zurique fechava o roteiro exatamente onde ele havia começado conceitualmente: entre mercados de Natal e estações de trem. Depois de 23 cidades, quatro países e dezenas de deslocamentos, chegávamos ao fim não diante de um grande monumento ou de uma última fronteira, mas dentro de uma estação, cercados mais uma vez por luzes, comidas e pessoas seguindo seus caminhos. Para uma viagem construída inteiramente sobre trilhos, dificilmente poderia haver um cenário mais apropriado para a despedida.
Depois de 23 cidades, o que ficou dessa viagem pelos mercados de Natal da Europa?
Durante 30 dias, 23 cidades e quatro países, o trem foi o que tornou possível costurar um roteiro desse tamanho sem transformar a viagem em uma sucessão cansativa de deslocamentos. Viajamos com o Eurail Global Pass, fornecido em parceria com a Eurail e a Rail Europe, combinando mudanças de cidade com bate-voltas como Montreux, Esslingen e Aachen e, na maior parte do tempo, saindo do centro de um destino para desembarcar poucas horas depois no seguinte.
No caminho, acumulamos também pequenas lembranças. A coleção de canecas dos mercados de Natal, iniciada quase por acaso em Montreux, foi crescendo junto com a viagem e acabou virando uma espécie de diário das cidades por onde passamos.
Depois de tantos mercados, porém, continuamos sem conseguir responder a uma pergunta aparentemente simples: qual foi o melhor? Montreux dificilmente pode ser comparada a Rothenburg; assim como a grandiosidade de Colônia oferece uma experiência completamente diferente do mercado medieval de Esslingen ou do porto iluminado de Lindau. E talvez justamente aí esteja a resposta.
O que mais ficou dessa viagem foi perceber quantas formas diferentes uma mesma tradição pode assumir. A gastronomia, a arquitetura, o idioma e os costumes mudavam de cidade para cidade, mas nem sempre essas diferenças acompanhavam as fronteiras dos países. Isso ficou especialmente claro às margens do Lago Constança, onde atravessamos Alemanha, Áustria e Suíça em poucos minutos, muitas vezes mantendo o mesmo idioma e encontrando referências culturais bastante semelhantes do outro lado.
Não saímos de casa querendo estudar fronteiras culturais. Queríamos conhecer cidades europeias durante o Natal, usando os mercados como fio condutor. No caminho, eles acabaram revelando muito mais sobre a história, a gastronomia e a identidade de cada lugar do que imaginávamos. Depois de 23 cidades e dezenas de mercados de Natal, não voltamos para casa com um vencedor. Voltamos com vontade de descobrir qual seria o próximo. E você, ficou com vontade de conhecer os Mercados de Natal da Europa? Escreve pra gente aí nos comentários!











